Carta ao meu amor de infância

Não tem motivo pra isso tudo ter acontecido com nós dois. Acho que a gente se conheceu novo demais, e uma série de coisas mudaram dentro de cada um, nos limitamos muito, fomos muito fechados, muito velhos pra idade. Então uma hora, todas as mudanças que foram acontecendo enquanto a gente crescia foram ficando mais e mais fortes, mais e mais relevantes, e nós paramos de nos encaixar, os costumes mudaram, a mente mudou, as vontades ficaram diferentes e já não dava mais pra conciliar. Acho que forçamos um pouco a barra pra ficar juntos mesmo não tendo nada a ver um com o outro. Acho que nós dois eramos carentes e queríamos companhia, carinho, queríamos alguém pra pensar antes de dormir, alguém pra mandar mensagem de boa noite e bom dia, alguém pra ficar falando o dia inteiro e contado cada detalhe da nossa tarde. Acho que os dois estavam curiosos no começo e empolgados com a beleza um do outro e dos dois juntos, e aí começamos e seguramos, e nos acomodamos, ambos, na paz de que nunca acabaria, planejamos nossa vida de adultos e esperamos pra viver essa vida, mas esperamos de um jeito errado, esperamos parando de viver o presente. Nós paramos, entende? Não rendia mais, as conversas estavam mais vazias, e as coisas que fazíamos eram chatas e não levantavam a gente. Acho que pedimos demais de nós mesmos, coisas demais pra um casal do ensino médio aguentar. A gente não deu certo e nunca vai dar porque não era pra ser, porque não era pra ser naquela hora e nós dois, afobados, decidimos tentar mesmo assim. Eu não me arrependo, porque aprendi tudo o que não devo fazer, e hoje sou melhor do que antes, queria que você sentisse isso também, mas acho que você também aprendeu muitas coisas e talvez seja por isso que está demorando tanto pra achar alguém, porque sabe que não quer e não vai cometer os mesmos erros, porque sabe que já aprendeu as lições que te forcei tão cruelmente a aprender, e eu concordo com isso. O único problema é que esse cuidado todo pode se tornar o exato oposto do que nós fizemos tão inocentemente há um certo tempo, toda essa proteção pode se tornar uma bolha impenetrável, uma bolha com espinhos, que machuca os que tentam se aproximar e também te machuca. A culpa não foi sua, não foi minha, a culpa não foi de ninguém,hoje eu sei que nós amamos intensamente um sonho, sonhamos intensamente com o futuro, planejamos tudo, e éramos lindos, mas não soubemos olhar pra vida que levávamos naquela hora, e é essa a maior lição que levo de nós dois, que não importa o que acontece ao redor, a pessoa com quem você planeja ficar o resto da sua vida é mais importante, é fundamental, porque sem presente, não existe futuro também. É como trabalhar a vida inteira incessantemente planejando viajar e aproveitar só quando chegar a hora de se aposentar, quando você já está velho e cansado. Nós somos tão jovens, ainda temos tanto tempo, mas, ainda assim, ele passa rápido, como o tempo que passamos juntos. Precisamos valorizar todo momento, tornar todos especiais, porque só aí compartilhar nossas vidas com alguém que amamos vai realmente valer a pena e só aí paramos de nos questionar se há algo melhor esperando lá fora e somos plenamente felizes com a pessoa que estamos.

desfrutar-se
Por você eu dançaria tango no teto, eu limparia os trilhos do metrô, eu iria apé do Rio a Salvador. Eu aceitaria a vida como ela é, viajaria a prazo pro inferno, eu tomava banho gelado no inverno. Por você eu deixaria de beber. Por você eu ficaria rico num mês, eu dormiria de meia pra virar burguês. Eu mudaria até o meu nome, eu viveria em greve de fome, desejaria todo dia a mesma mulher. Por você conseguiria até ficar alegre, pintaria todo céu de vermelho, eu teria mais herdeiros que um coelho.
Barão Vermelho (via desfrutar-se)